Corinthians Protagonistas

NE
GRA
- LI

Negra li

O AMOR
ATRAVÉS
DO RADINHO

No quintal de casa, na Vila Brasilândia,
zona norte de São Paulo, um radinho
de pilha anunciava que o Corinthians
estava em campo.
Do lado de fora da casa, os índices de violência e a falta de
infraestrutura, nos anos 80, assustavam qualquer criança. Dentro
dela, porém, o sorriso do pai Helvecio Francisco de Carvalho,
devidamente trajado com o manto corinthiano, era uma espécie de
portal para a felicidade.

Ali, observando as pessoas entusiasmadas com o que saía no rádio,
a pequena Liliane enxergou uma ponte.
Considerando a relevância do Corinthians no contexto social das
áreas periféricas, é notável a influência que o clube exerce. A
torcida, conhecida como "Fiel" e o próprio Corinthians,
desempenham um papel muito significativo e atuante dentro das
comunidades.

"Eu tenho apreço por diversas modalidades esportivas, amo o
esporte como um todo, e observo que muitos jovens e crianças
provenientes de áreas periféricas encontraram transformações
significativas em suas vidas por meio do futebol e do esporte em
geral. O que mais me atrai no futebol é a sua capacidade de
promover resgate social, semelhante ao movimento cultural do rap."

O entusiasmo com o esporte e a determinação por buscar coisas
novas fez Liliane tentar ser atleta, só que a forma arrojada com que
disputava cada lance fez o primeiro sonho não dar certo. Se dentro de
campo, porém, a impulsividade assustou, com o microfone na
mão, ajudou a derrubar barreiras.
Liliane Virou Negra Li, a maior e mais importante rapper do Brasil.

"Durante minha infância, participei ativamente de jogos de futebol
na escola, demonstrando habilidade e coragem no campo. Embora
minha técnica fosse limitada, minha determinação era evidente,
o que muitas vezes intimidava meus oponentes e os mantinha
afastados. Apesar de não ter uma compreensão completa do jogo,
acredito que minha inclinação seria para a posição de atacante,
devido à minha tendência a buscar o gol."

Cantora, compositora e atriz, Negra Li é a personificação da palavra
poder. Imagem construída através de uma personalidade de quem
se nega a curvar-se diante dos desafios impostos para uma mulher,
negra e periférica.

" Frequentemente expresso a ideia de que pertenço ao futuro, pois
ao contemplar o passado, mesmo o recente, percebo um
sentimento de tristeza.

É lamentável considerar o passado de escravidão que nossa
sociedade enfrentou. E ao refletir sobre esse período, prefiro voltar
ainda mais no tempo, e exaltar a época em que éramos
governantes e nobres. Mas independentemente de termos sido
privados dessa nossa parte da história, quando conquistamos
riquezas, eu opto por direcionar meu foco para o futuro, aspirando
deixar um legado e contribuir para a transformação do mundo."
Negra li

"O futebol
resgata, assim
como o rap"

Se desde que foi apresentada à música Negra Li sabia que o rap era sobre resistência e
combate a injustiças sociais, no futebol essa visão teve que ser construída. Nas lúdicas
lembranças do radinho de pilha não havia espaço para um dos grandes problemas do
esporte: o racismo.

"Eu mesma mantive uma perspectiva equivocada sobre o futebol. Recordo-me de ter
concedido entrevistas nas quais afirmava que o futebol era admirável, pois parecia
transcender barreiras de raça, cor, classe social e status financeiro. No entanto, ao longo
dos anos, percebi minha falha nesse entendimento, baseado unicamente na observação da
representação significativa de jogadores pretos. Isso ressalta a importância do acesso à
informação e do debate contínuo sobre o assunto."

O conhecimento sobre o cenário racial no esporte trouxe consigo a vontade de engajar na
luta contra o racismo. Desafio que ela acredita ser possível vencer da mesma forma como
sempre venceu os obstáculos que encontrou pelo caminho: construindo pontes.

"A transformação desse panorama ocorre mediante argumentação, ampla comunicação e
debate. Alguns acreditam erroneamente que o silêncio resolve a questão, porém, se assim
fosse, não enfrentaríamos essa realidade. É necessário que indivíduos de todas as origens se
engajem nessa luta, pois a questão da discriminação racial deve ser uma preocupação
coletiva. O preconceito racial não é benéfico para ninguém. Portanto, acredito que o debate e
a disseminação de informações são essenciais para evitar a normalização de determinadas
atitudes e para promover a empatia e compreensão das experiências do próximo."
Texto por Elton de Castro
Observatório da Discriminação Racial no Futebol