O chão que é palco de queda
também é pista para novos voos.
Em Lagoa de Itaenga, no agreste de Pernambuco, o chão costuma ser o lugar do repouso ou da poeira que o vento carrega. Para as meninas da cidade de 19 mil habitantes, as ruas e pistas de skate eram um território de observação, nunca de posse. Mas, nos últimos meses, a dinâmica local mudou. Agora, o asfalto é riscado por um estalo seco da batida da madeira contra o concreto: o shape anunciando que o corpo feminino também é parte destes espaços.
"Depois do skate, eu consegui confiar mais em mim e nas pessoas. Eu aprendi a não abaixar a cabeça. Porque a cada vez que a gente abaixa a cabeça, a gente está dando as costas para o nosso sonho".
outras meninas no Nordeste através do programa Skate pela Mudança Social - iniciativa que nasceu em 2024 fruto de uma parceria entre a Nike, a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e a Laureus Sport for Good, com a mentoria técnica da ONG Social Skate. O programa foi desenhado para fortalecer organizações que já atuam na ponta, proporcionando oportunidades que o esporte abriu para uma de suas referências, Rayssa Leal.
A multicampeã, que acompanhou o programa desde o início, conhece bem os obstáculos que tentam frear o começo de uma história:
"O medo andou comigo por um tempo. O medo de não ser aceita, de ouvir que isso não é para você. Mas é nessas horas que lembro de todas aquelas que vieram antes de mim e sonho com todas as outras que ainda virão".
Para que a jornada de Maria Sofia e tantas outras ganhasse velocidade, o programa fincou raízes em três comunidades: em Pernambuco, com a Associação Conexão Social; e no Ceará, com o PESS e o Instituto Esporte Mais. Durante toda a iniciativa, essas organizações receberam as ferramentas para fortalecer sua própria estrutura. Do suporte financeiro, ao olhar pedagógico, o objetivo foi um só: pavimentar o caminho para que o skate seja, cada vez mais, uma ferramenta de transformação nas mãos de quem já conhece a realidade da ponta.
A urgência do programa é traduzida em números que revelam uma desigualdade histórica. No Brasil, o abandono esportivo entre meninas é o dobro do registrado entre os meninos. Elas não saem do jogo por cansaço, mas por exclusão; por sentirem que a pista é um dialeto que não lhes foi ensinado. O Skate pela Mudança Social inverte essa lógica ao colocar o protagonismo feminino no centro da pista.
Ao todo, 170 crianças e adolescentes foram beneficiados, sendo 90 deles, meninas. Mais do que estatística, esse número representa uma mudança na paisagem das pistas.
"O programa trouxe uma visão diferente. Muitas pessoas viam o skate como um esporte masculino. Eu achei que ampliou a visão das pessoas para não terem preconceito".
Falar das crianças beneficiadas é, na verdade, falar de famílias que agora veem o espaço público como um lugar de direito. Falar em meninas ocupando as pistas é falar de uma geração que está quebrando o "silêncio ensurdecedor" das normas de gênero.
A alma do programa carrega a digital de Rayssa Leal. Nordestina e conhecedora das barreiras que tentam frear o começo de uma trajetória, a atleta participou ativamente da cocriação da iniciativa.
Sua presença presencial ou por mensagens, tornou a atleta não uma estrela distante, mas alguém que assim como Maria Sophia, também aprendeu pelos asfaltos das pequenas cidades brasileiras que: "No skate a gente cai, mas levanta mais forte".
E é essa mudança que se vê nos olhos das meninas. O esporte também passou a ser uma linguagem de liberdade e resiliência.
"Eu sei exatamente o que o skate fez por mim. Ter participado dessa iniciativa e ver o esporte entrando na rotina delas é mostrar que a gente pode ocupar qualquer lugar. O skate ensina que a gente cai, mas levanta mais forte".
Um dos pilares fundamentais foi a atuação em rede e o fomento a esse olhar para a sustentabilidade das ações dentro das organizações selecionadas. Não basta que a menina suba no skate; é preciso preparar a comunidade para que ela seja acolhida por uma estrutura que entenda suas potências e desafios.
Para isso, o programa investiu na capacitação de instrutores e educadores, garantindo uma formação que une técnica esportiva, saúde mental e cidadania. Foram mais de 100 horas, entre workshops presenciais e online.
Para Jessyca Rodrigues, gestora do Instituto Esporte Mais, em Fortaleza, a iniciativa transforma a perspectiva pedagógica e amplia o alcance do sonho.
"Além da capacitação que recebemos, a oportunidade de levar as meninas para viver experiências em outros lugares, como conhecer a Rayssa em São Paulo, abre horizontes que elas nem sabiam que existiam".
Ao fortalecer as educadoras e treinadoras, o programa cria modelos próximos e acessíveis: as meninas não veem apenas a campeã na TV, elas veem a possibilidade real em suas próprias comunidades. Ao verem mulheres no papel de liderança e instrução, as meninas entendem que o esporte pode ser, inclusive, um caminho profissional e de vida.
E para que o movimento iniciado em Pernambuco e no Ceará ganhe novos horizontes, reunimos os acertos, os tropeços e as lições colhidas no Guia Meninas, Skate & Transformação. Um documento construído a partir das vozes de quem viveu a pista: das gestoras às meninas, do asfalto à gestão. Este guia é o nosso convite para que o esporte siga avançando, coletivamente.
A vitória não é um pódio estático; é um lugar que se ressignifica todos os dias. Ao ver Maria Sophia manobrando em Lagoa de Itaenga, percebemos que o projeto cumpriu sua missão: ele mudou a gramática daquela comunidade. O skate agora se conjuga no feminino e no plural.
A pergunta que fica, enquanto o som das rodinhas ecoa pelas ruas pernambucanas, não é se essas meninas serão campeãs olímpicas, mas sim: quantas barreiras mais elas serão capazes de saltar agora que sabem que o chão, por mais duro que seja, também pode ser o ponto de partida para o voo? O futuro, ao que tudo indica, vem sobre rodas.
O chão que é palco de queda
também é pista para novos voos.
Em Lagoa de Itaenga, no agreste de Pernambuco, o chão costuma ser o lugar do repouso ou da poeira que o vento carrega. Para as meninas da cidade de 19 mil habitantes, as ruas e pistas de skate eram um território de observação, nunca de posse. Mas, nos últimos meses, a dinâmica local mudou. Agora, o asfalto é riscado por um estalo seco da batida da madeira contra o concreto: o shape anunciando que o corpo feminino também é parte destes espaços.
"Depois do skate, eu consegui confiar mais em mim e nas pessoas. Eu aprendi a não abaixar a cabeça. Porque a cada vez que a gente abaixa a cabeça, a gente está dando as costas para o nosso sonho".
outras meninas no Nordeste através do programa Skate pela Mudança Social - iniciativa que nasceu em 2024 fruto de uma parceria entre a Nike, a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e a Laureus Sport for Good, com a mentoria técnica da ONG Social Skate. O programa foi desenhado para fortalecer organizações que já atuam na ponta, proporcionando oportunidades que o esporte abriu para uma de suas referências, Rayssa Leal.
A multicampeã, que acompanhou o programa desde o início, conhece bem os obstáculos que tentam frear o começo de uma história:
"O medo andou comigo por um tempo. O medo de não ser aceita, de ouvir que isso não é para você. Mas é nessas horas que lembro de todas aquelas que vieram antes de mim e sonho com todas as outras que ainda virão".
Para que a jornada de Maria Sofia e tantas outras ganhasse velocidade, o programa fincou raízes em três comunidades: em Pernambuco, com a Associação Conexão Social; e no Ceará, com o PESS e o Instituto Esporte Mais. Durante toda a iniciativa, essas organizações receberam as ferramentas para fortalecer sua própria estrutura. Do suporte financeiro, ao olhar pedagógico, o objetivo foi um só: pavimentar o caminho para que o skate seja, cada vez mais, uma ferramenta de transformação nas mãos de quem já conhece a realidade da ponta.
A urgência do programa é traduzida em números que revelam uma desigualdade histórica. No Brasil, o abandono esportivo entre meninas é o dobro do registrado entre os meninos. Elas não saem do jogo por cansaço, mas por exclusão; por sentirem que a pista é um dialeto que não lhes foi ensinado. O Skate pela Mudança Social inverte essa lógica ao colocar o protagonismo feminino no centro da pista.
Ao todo, 170 crianças e adolescentes foram beneficiados, sendo 90 deles, meninas. Mais do que estatística, esse número representa uma mudança na paisagem das pistas.
"O programa trouxe uma visão diferente. Muitas pessoas viam o skate como um esporte masculino. Eu achei que ampliou a visão das pessoas para não terem preconceito".
Falar das crianças beneficiadas é, na verdade, falar de famílias que agora veem o espaço público como um lugar de direito. Falar em meninas ocupando as pistas é falar de uma geração que está quebrando o "silêncio ensurdecedor" das normas de gênero.
A alma do programa carrega a digital de Rayssa Leal. Nordestina e conhecedora das barreiras que tentam frear o começo de uma trajetória, a atleta participou ativamente da cocriação da iniciativa.
Sua presença presencial ou por mensagens, tornou a atleta não uma estrela distante, mas alguém que assim como Maria Sophia, também aprendeu pelos asfaltos das pequenas cidades brasileiras que: "No skate a gente cai, mas levanta mais forte".
E é essa mudança que se vê nos olhos das meninas. O esporte também passou a ser uma linguagem de liberdade e resiliência.
"Eu sei exatamente o que o skate fez por mim. Ter participado dessa iniciativa e ver o esporte entrando na rotina delas é mostrar que a gente pode ocupar qualquer lugar. O skate ensina que a gente cai, mas levanta mais forte".
Um dos pilares fundamentais foi a atuação em rede e o fomento a esse olhar para a sustentabilidade das ações dentro das organizações selecionadas. Não basta que a menina suba no skate; é preciso preparar a comunidade para que ela seja acolhida por uma estrutura que entenda suas potências e desafios.
Para isso, o programa investiu na capacitação de instrutores e educadores, garantindo uma formação que une técnica esportiva, saúde mental e cidadania. Foram mais de 100 horas, entre workshops presenciais e online.
Para Jessyca Rodrigues, gestora do Instituto Esporte Mais, em Fortaleza, a iniciativa transforma a perspectiva pedagógica e amplia o alcance do sonho.
"Além da capacitação que recebemos, a oportunidade de levar as meninas para viver experiências em outros lugares, como conhecer a Rayssa em São Paulo, abre horizontes que elas nem sabiam que existiam".
Ao fortalecer as educadoras e treinadoras, o programa cria modelos próximos e acessíveis: as meninas não veem apenas a campeã na TV, elas veem a possibilidade real em suas próprias comunidades. Ao verem mulheres no papel de liderança e instrução, as meninas entendem que o esporte pode ser, inclusive, um caminho profissional e de vida.
E para que o movimento iniciado em Pernambuco e no Ceará ganhe novos horizontes, reunimos os acertos, os tropeços e as lições colhidas no Guia Meninas, Skate & Transformação. Um documento construído a partir das vozes de quem viveu a pista: das gestoras às meninas, do asfalto à gestão. Este guia é o nosso convite para que o esporte siga avançando, coletivamente.
A vitória não é um pódio estático; é um lugar que se ressignifica todos os dias. Ao ver Maria Sophia manobrando em Lagoa de Itaenga, percebemos que o projeto cumpriu sua missão: ele mudou a gramática daquela comunidade. O skate agora se conjuga no feminino e no plural.
A pergunta que fica, enquanto o som das rodinhas ecoa pelas ruas pernambucanas, não é se essas meninas serão campeãs olímpicas, mas sim: quantas barreiras mais elas serão capazes de saltar agora que sabem que o chão, por mais duro que seja, também pode ser o ponto de partida para o voo? O futuro, ao que tudo indica, vem sobre rodas.